FERROVIÁRIA 90 ANOS – Abissínio também escreveu seu nome no futebol profissional da Ferroviária. Hoje seu filho Robão é Presidente do Conselho Deliberativo.

Entrevista e texto: Jornalista João Paulo Ouverney. Reg MTb 20.087. Fotos: Ouverney, acervo do clube e família e Ferroviária.

 

Observação – Em 2010 eu fiz essa entrevista com o “Abissínio”, pouco depois ele faleceu, em 26 de fevereiro de 2012.

 

Agenor Martins da Luz, popular “Abissínio”,  foi um dos grandes craques do futebol profissional da Associação Atlética Ferroviária. Nascido em 9 de julho de 1927, em São Bento do Sapucaí, signo de Câncer,  filho de Rodovalho Martins da Luz e Benedita Maria Romão, foi casado com Maria Aparecida César Martins e o casal teve sete filhos: Ana Carolina, Hélio Otávio, José Robson, Maria Cecília, Regina Helena, Marco Antonio e Maria Letícia. Possuía 16 netos.

Aposentado da Estrada de Ferro Campos do Jordão, Abissínio formou-se advogado e até pouco antes do seu falecimento  exerceu a profissão. Seu lazer era frequentar a Academia da Ferroviária e ajudar a irmã no comércio.

Um de seus filhos, José Robinson “Robão”, foi Vice-Presidente na 1ª gestão de Leandro Matos e atualmente é o Presidente do Conselho Deliberativo.

 

João Paulo Ouverney – O senhor nasceu em São Bento do Sapucaí, porque veio para Pindamonhangaba?

Abissínio – Meu pai faleceu seis meses antes de eu nascer, então minha mãe veio trabalhar como cozinheira na casa do Dr. Campello, onde vivemos durante 70 anos. Eu fui criado como filho pelo Dr. Campello.

JPO – E como foi seu início no futebol?

Abissínio – Comecei a jogar no infantil da Ferroviária quando o campo era ao lado das oficinas da “Estradinha”, depois cheguei à categoria principal. Quando, em 1943, foi mudado o traçado da linha férrea da EF Central do Brasil e cortou nosso campo ao meio, a Ferroviária ficou algum tempo parada. Nesse período eu joguei em Cruzeiro, no Esporte Clube Taubaté, no Botafogo e Flamengo do Rio de Janeiro. Mas fiquei pouco tempo no Rio porque um dos meus filhos estava para nascer e decidi voltar.

JPO – Como foi sua volta para Pindamonhangaba?

Abissínio – Algum tempo depois a Ferroviária conseguiu, com muita luta, construir o novo estádio na Boa Vista (inaugurado em 1948) onde está até hoje. O presidente, Seu Tobias Salgado, reestruturou o time, voltei para o clube e participamos da 2ª Divisão de Profissionais do Estado de São Paulo, disputamos a decisão contra o Ituano no Pacaembu e perdemos por 2 x 1.

JPO – Quais as principais competições que o senhor disputou?

Abissínio – Disputamos o profissional, depois o campeonato amador do Vale (tinha times de Cruzeiro a Jacareí) e fomos campeões duas vezes.

JPO – Cite alguns dos craques com quem o senhor jogou:

Abissínio – Joguei com o Terno (meu sogro), Doca, Oscar, Viola (falecido em 1959 em acidente do bondinho), Tomé, Jabor, Barbeirinho e muitos outros. E não posso deixar de citar o ex-presidente da Ferroviária, Tobias Salgado, pois foi em suas gestões que o clube viveu a época de ouro que marcou sua história de 80 anos.

JPO – Por que resolveu se formar advogado?

Abissínio – Em 1967 eu era funcionário da “Estradinha” e fui “emprestado”  para trabalhar em São Paulo. Fui motorista dos governadores Laudo Natel, Paulo Egydio, Abreu Sodré e Lucas Nogueira Garcez. Nesse período estudei Direito e me formei na Faculdade Metropolitana Unidas

JPO – Desde quando o senhor é sócio da Ferroviária?

Abissínio – Desde 1945, quando ingressei como funcionário da EF Campos do Jordão. Hoje (em 2010) sou conselheiro vitalício do clube. Fui vice-presidente durante quatro anos com o Engº. Eduardo San Martin e mais quatro anos com o presidente Engº. Arthur Ferreira dos Santos.

JPO – Fale-nos do Abissínio comerciante:

Abissínio – Fui proprietário da lanchonete “O Salgadinho” próximo ao mercado municipal durante dez anos, até que  houve um incêndio e encerrei as atividades. Mas continuei ajudando minha irmã Cristina nesta atividade.

JPO – Qual a sua visão de Pinda atualmente (2010)?

Abissínio – A cidade está crescendo muito, mas falta desenvolver-se pelo lado da ponte do Paraíba; utilizar a área ociosa da antiga Coca-Cola; o terreno abandonado do INSS e o próprio prédio do INSS que está praticamente abandonado, enquanto o povo é atendido no Centro de Saúde. A sede do 2º Batalhão de Engenharia poderia mudar-se para um lugar mais adequado  e aquele espaço ser aproveitado por algum órgão público. 

JPO – Como o senhor vê o futebol de Pindamonhangaba atualmente?

Abissínio – Quem viu o futebol do passado e o praticou, como eu e muitos outros, o de hoje é fraco, está restrito aos campeonatos de base e veteranos. A diretoria da Liga deve buscar mais competições regionais. Os campos de várzea que formavam bons craques, hoje é força bruta, as escolinhas não são como os campos de várzea.

JPO – E sobre as eleições deste ano (2010), qual sua opinião?

Abissínio – Sinceramente, estou desiludido. Vemos  muita corrupção principalmente nos altos escalões, a maioria dos figurões da política só quer levar vantagem. E o pior de tudo: a impunidade, as famosas comissões de éticas declaram todos inocentes e o coitado do povo (todos nós) que paga a conta.

JPO – E o prefeito João Ribeiro (da época da entrevista), como o senhor o analisa?

Abissínio – Fui muito amigo do pai dele, o professor Manoel César Ribeiro, e sou amigo do João Ribeiro. Ele está fazendo um bom trabalho, embora ainda exista muita coisa a fazer, como exemplo encontrar uma solução para o prédio abandonado da Central do Brasil no centro da cidade (foi solucionado pelo atual prefeito Dr. Isael).

JPO – Com sua experiência, que conselho dá aos garotos que estão começando no futebol?

Abissínio – O cuidado físico é fundamental, precisam se cuidar mais, sem bebida e cigarro, e menos baladas. E principalmente muito cuidado para não cair no vício da droga, saibam escolher os amigos e procurem uma boa escolinha de futebol.